quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Estado cerceia maracatus na Mata Norte restrigindo horários de ensaios e sambadas

 / Foto: Beto Figuerôa/ Acervo JC Imagem

Foto: Beto Figuerôa/ Acervo JC Imagem

Nazaré da Mata, Zona da Mata Norte de Pernambuco. Na madrugada do último domingo, o município foi palco de uma ação polêmica por parte da Polícia Militar (PM) que vem, desde a semana passada, envolvendo classe artística, produtores e apreciadores da cultura popular em fervorosas discussões nas redes sociais.
A sambada de comemoração dos 96 anos do Maracatu Cambinda Brasileira foi interrompida em sua quase apoteose pela PM. A justificativa do ocorrido se desdobra: segundo presentes, a interrupção se deu devido à proibição de eventos ocorrerem em locais públicos depois das 2h da manhã; já a promotora de Nazaré, Maria José Mendonça, diz não ter tido proibição por parte do Ministério Público de Pernambuco (MPPE). “A polícia foi ao local nesse final de semana pois parece que tinha alguém armado. Por conta disso encerraram o evento”, justificou.
Maria José se reúne nesta quarta (5), às 14h, em Nazaré, com maracatuzeiros e representantes do governo do Estado para debater a questão dos horários – seculares e tradicionalíssimos, diga-se de passagem – de realização dos ensaios e sambadas de maracatu. “A reunião de amanhã não é para proibir, mas organizar. Tivemos denúncias e um abaixo-assinado por parte de moradores do município no final do ano passado devido ao barulho dos ensaios”, diz Maria José.
O cantor e compositor Siba, filho adotivo da Zona da Mata Norte, foi um dos primeiros a se posicionar em relação ao ocorrido e vai estar presente hoje. “A região está passando por um problema sério em relação à questão da intervenção policial. No caso do maracatu de baque solto, acaba sendo extremamente agressivo. É uma festa das pessoas mais pobres da região, que não têm outro divertimento. Elas agora estão sofrendo uma pressão muito grande”, defendeu. 
Mestre Barachinha, do Maracatu Leão Mimoso Upatininga, de Aliança, denuncia também a repressão e ressalta que ela vem acontecendo há muito mais tempo. Natural de Nazaré da Mata, ele brinca o maracatu desde a infância, aos 11 anos, como muitos participantes dos festejos.  Ter suas festividades encerradas de manhã sempre foi o legado do maracatu de baque solto. 
Completando seu terceiro Carnaval como mestre em Aliança, Barachinha conta que, desde que entrou, nunca pôde passar das 2h. “É uma tristeza muito grande. Se a gente entregar o ofício na delegacia dizendo que vamos ficar até às 5h, somos proibidos. Estamos sendo forçados a abrir mão de uma tradição.” 
Segundo a promotora de Aliança, Silvia Câmara, a limitação dos horários de eventos públicos advém de uma lei estadual, mas que ela não sabe precisar qual é a lei. “Qualquer evento tem que acabar à meia-noite durante os dia da semana e às 2h nos finais de semana. Acho razoabilíssimo (sic) esse horário. Muitas vezes ocorrem crimes de madrugada”, disse, embora admita que a Promotoria de Aliança não tenha recebido nenhuma queixa em relação aos maracatus. Para ela, a tradição do maracatu não merece tratamento diferenciado em relação a outros eventos.
Filho de mestre Salustiano e defensor da cultura popular, o músico Maciel Salustiano também estará presente na reunião. Ele ressalta que o maracatu não gera violência e que, mesmo que ocorram assaltos e tráfico de drogas de madrugada, eles não estão associados à tradição. “A gente quer entender, mas quer ser entendido também. O maracatu exige um preparo que dura o ano todo. São duelos, brincadeiras, rimas, sambadas. Já participei de brincadeiras em Nazaré e outras cidades onde fomos interrompidos. É muito fácil ter logomarca do caboclo de lança em propaganda de governo”, ressalta.
MOBILIZAÇÃO
Integrante da Comissão Independente de Cultura Popular e historiadora, Alexandra de Lima Cavalcanti também fez ressoar o sentimento dos maracatuzeiros. “A festa de Momo é, claro, a festa maior da cultura popular. Mas é no dia a dia que a brincadeira acontece e que a tradição é repassada e preservada. Continuar tolhendo suas atividades e rotulando-a pejorativamente como estão querendo é um erro gravíssimo”, disse. 
O verde esperança que reluz nas lantejoulas da indumentária dos caboclos de lança é o mesmo que leva maracatuzeiros e artistas a crer num consenso entre a legislação vigente e o bom senso do poder público. O desejo é que revejam o horário de término dos ensaios e das sambadas e que haja uma maior tolerância em relação às manifestações populares locais; tolerância que vá além da apropriação estética por parte do governo do Estado para promover gestões.
Leia matéria na íntegra na edição desta quarta-feira (5) do Caderno C, no Jornal do Commercio
Leia abaixo o depoimento de Siba:
"Pernambuco, Maracatu de Baque Solto e a Cobertura da Lei.
Antes de ser um cortejo de carnaval que representa uma nação em movimentos de guerra, Maracatu é uma festa, na rua, que acontece aos sábados `a noite, entre setembro e o carnaval e que é conhecida por amanhecer o dia.
Nela, se dança um ritmo que só existe ali.Não tem um passo único, estereotipado, cada um dança de um jeito, no estilo da coisa, mas ninguém dança igual.A Manobra, coreografia que abre e fecha a festa, é um movimento intrincado que envolve dançarinos, músicos e poetas numa constelação em movimento que parece a imagem do caos que gerou o mundo, mas que se move com a graça e a beleza de um futuro mundo melhor possível, pra quem souber ver. Se canta, poesia, rimada e em grande parte improvisada.Um jogo de inteligênca cheio de regras de rima, métrica e uso da linguagem. A musica é rápida, frenética, agressiva, nem um pouco temperada para os padrões musicais que atingem lonjuras através do rádio e da tv.
Tudo na expressão do Maracatu de Baque Solto afirma e reafirma a singularidade das pessoas que nele se vêem representadas.Essas pessoas são, em grande parte, as mais pobres de uma região cujas limitações estão diretamente vinculadas a seu passado escravocrata.A Zona da Mata é a cana de açúcar e suas mazelas e o Maracatu é invenção, tesouro volátil, “patrimônio imaterial”do trabalhador da cana.
Ensaio de maracatu vai até o amanhecer, por costume secular. Para o maracatuzeiro, maracatu só é maracatu se amanhece o dia.Se não, vira “folclore”, palavra usada na região para denominar todo tipo de apresentação artificial, show pra turista, filmagem pra tv, etc.
A importância de amanhecer o dia fica mais fácil de se entender se for pensada talvez como uma coisa mística, religiosa.Parece simples, mas não é. Precisa-se de uma noite inteira mas não se trata de quantidade de tempo, e sim da possibilidade de suspensão do tempo.
Fazer o tempo parar:
As pessoas que realizam o trabalho braçal mais pesado só sabem se divertir também levando seu corpo ao limite na dança, no canto, no malabarismo mental da rima.
O Maracatu é o meu grande amor.Me construiu como artista, mas muito mais que isso me fez como pessoa no mundo.Eu não nasci na Mata Norte mas sou como um filho adotivo, são já mais de 20 anos de presença minha no lugar, e do lugar em mim.De um universitário visitante apaixonado construí com os anos a capacidade de cantar ao lado dos artistas que mais admiro no mundo:Barachinha, Dedinha, João Paulo, Zé Galdino.Gigantes ali, mas desconhecidos mesmo no Recife do Manguebit.
Precisaria de um livro inteiro para compartilhar o que aprendi nesse tempo, mas a lição mais pertinente ao momento tem a ver com generosidade:Nunca, em meu longo e lento processo de aprendizado, me foi negado o acesso ao conhecimento.Ao contrario, a cada pequeno avanço, novas portas se abriram para mim e assim é até hoje.
Isso me faz sempre pensar que país teríamos se o saber formal fosse compartilhado de maneira tão aberta quanto o oral.
Tem gente que enxerga uma romântica rebeldia no maracatu.Mas o maracatuzeiro na verdade está sempre fazendo acordo de paz. Maracatuzeiro é quem espera o culto evangélico terminar pra começar a festa.É quem cancela ensaio quando morre alguém do bairro em data próxima.
Maracatu também tem que estabelecer acordo com a polícia.
Pra fazer seu ensaiozinho de maracatu você prepara um ofício e vai na delegacia e no quartel de sua cidade informando sobre a realização da festa e solicitando a presença da polícia no local.
Esta aparece sempre, em algum momento da noite, observa de longe, eventualmente fazendo alguma batida nos bares ao redor mas nunca, nunca, entrando dentro do maracatu para interferir. Nesses anos todos eu nunca presenciei situação de tensão entre o maracatu e a polícia. Sempre entendi isso como um caso bem resolvido de acordo entre o poder e o costume local, mas recentemente essa realidade tem mudado.
Os maracatus tem sido sistematicamente impedidos de realizar seu ensaios até o amanhecer.
No dia 11 de janeiro passei uma boa parte da noite de ensaio do grupo que faço parte, o Maracatu Estrela Brilhante de Nazaré da Mata, argumentando com os policiais que ali estavam sobre a posse ou não do direito de seguir com a festa até de manhã, já que tínhamos o documento com a permissão e eles tinham a ordem superior de nos mandar parar.
Paramos o maracatu com o sol no rosto desta vez, mas com a maioria dos grupos da região a história tem sido diferente. Estrela Dourada de Buenos Aires, Leão Misterioso, Cambinda Brasileira de Nazaré da Mata, e quase todos, tiveram seus ensaios interrompidos `as duas da manhã. Curiosamente, noites de maracatu promovidas pelas prefeituras ou por projetos culturais com patrocínio estadual ou federal tem acontecido sem limite de tempo.
Conversando com os mais velhos, cuja memória “alcança” os anos 60, não consegui nenhuma lembrança de proibição similar no passado...
De onde parte, movida por quais motivos e que objetivos tem essa imposição?
Por enquanto só posso dialogar com os argumentos do policial que,gentilmente, me disse como se fosse um detalhe banal que essa “nova ordem” ia valer até pro carnaval: Medidas de contenção da violência, Lei do Silêncio...
Alguém aí consegue imaginar o carnaval do Recife parando `as duas da madrugada também?
Não acho que leis de respeito ao silêncio pertinentes `as grandes cidades devam ser aplicadas de maneira uniforme.O “barulho” do maracatu é música celestial para uma enorme quantidade de pessoas onde ele existe e cada maracatu só faz a sua festa uma ou duas vezes ao ano.São muitos os amantes do maracatu e eles também votam nas autoridades que utilizam seus símbolos culturais para promover a “rica cultura” da região e do Estado em função do turismo.Sou testemunha do histórico baixíssimo de violência relacionada `as noites de maracatu e basta ligar a tv no horário infantil pra saber o tanto que se mata de gente em festas de outro tipo em Pernambuco.
O que se quer com essa arbitrariedade?
Maracatu no Maracatuzódromo?
Carnaval no Shopping?
Progresso com mais Ordem?
Proibir a festa do cortador de cana é um crime.
Um estupro com a faca na garganta.
Um golpe de misericórdia que não mata mas aleja.
Que fazer?
Não sei, comecei escrevendo esse pedido de socorro.
Maracatuzeiro não usa internet nem facebook pra mobilizar opinião e fazer protesto.Mas tem voz a ser ouvida. O Poeta José Galdino, na festa interrompida da Cambinda Brasileira, formulou em versos da seguinte maneira:
“A lei em vez de cobrir
Nega nossa cobertura”.
Espero ouvir as vozes dos que poderiam ou deveriam de alguma forma cobrir o povo do maracatu com uma mão acolhedora:Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco? Prefeitos da Mata Norte? Secretario de Cultura do Estado? Governador? 


FONTE: JC ONLINE

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